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Aldo Uto
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Esta é a matéria que seria editado no Jornal Internacional Press. No entanto, acabou sendo editado somente parte desta. Mas deixarei postado por estar mais completa em informações e esclarecimento.

Para quem deseja ver a matéria do jornal, ver www.ipcdigital.com matéria dia 06/02/2010.


“Eles não precisam de um emprego”.

 

O idealizador e mantenedor do projeto Grupo de Orações, em Honjo, Saitama, aponta curiosos pontos de vista em relação ao problema dos moradores de rua das grandes cidades.

 

Basta ser um bom observador ao percorrer centros comerciais em capitais imponentes. Eles estão lá, os chamados sem-teto, moradores de rua. Muitos passam e simplesmente desviam o olhar. Outros poucos, como Aldo Uto, 37 anos, residente no Japão há oito anos, supervisor comercial na área de vendas, e atual nome por trás do respeitável trabalho nas praças da cidade de Tóquio, sentem o peso da responsabilidade social de todo ser humano diante de uma situação tão incômoda e alarmante. Aldo fala sobre o engano no julgamento das pessoas em relação ao problema.  ( - Já fiz 38 anos e não sou mais supervisor. Estou como funcionário do Governo - Hello Work)

 

Já há alguns anos vocês fazem esse trabalho na região de Tóquio. No Brasil, você já realizava projetos como este? Não. A idéia surgiu aqui mesmo no Japão, após algum tempo desde a minha chegada aqui. Há cinco anos, encontrei-me em uma fase muito ruim da minha vida pessoal e precisei buscar ajuda externa pra superar a totalidade dos problemas que enfrentava. Na época eu estava na região de Nagoya e conheci uma linha filosófica de pensamento onde encontrei respostas para muitos dos meus anseios. Foi quando surgiu a idéia, há quase três anos. ( - Me refiro a Doutrina Espírita, apresentada na época pelo amigo Celso Kawamoto).

 

Como começou todo o trabalho, como o conhecemos hoje? Inicialmente, passei a compreender como essas pessoas chegam ao ponto de morarem, literalmente, na rua. Logo, me sensibilizei e comecei comprando, uma vez por mês, praticamente sozinho, aproximadamente, cem marmitas (“obentô” e levava para Tóquio. Quando conheci minha esposa, há dois anos e quatro meses, Terumi Takano, tivemos o pensamento de converter o dinheiro gasto nas marmitas em alimentos que cozinharíamos. O resultado foi surpreendente, pois passamos então a atender não só cem pessoas, mas trezentas desde então. Já estamos no segundo ano junto com o grupo atual. Agora já recebemos uma considerável parcela de ajuda das pessoas: uns trazem arroz, outros nori (alga usada no onigiri), e até quantias em dinheiro. Adquirimos também uma panela de arroz grande e um fogão industrial, para fazer a sopa. 


Sabemos que o grupo faz esse trabalho voluntariamente. Quantos e quem são os integrantes? Participam hoje, cerca de quinze pessoas na confecção dos alimentos, mas são cinco as que nos acompanham na entrega. São pessoas comuns como todos nós e que dispõem de um tempo, uma vez por mês, para trabalhar por uma melhora social. ( - Se for contar todos os que passaram pela linha do onigiri somam mais de 35, + os que nos acompanham na distribuição mais uns 20).

 

A quem vocês atendem? Quem são esses moradores de rua? São em sua quase totalidade, japoneses. Certa vez encontramos um brasileiro, mas é muito raro encontrarmos estrangeiros. São homens que perderam seus empregos e por conseqüente falta de bens materiais, perderam também suas esposas e filhos. Isso é bastante agravado quando temos que homens com idade acima de 50 anos dificilmente conseguem recolocação. Há também ex-professores universitários, donos de empresas que entraram em falência, homens com dívidas de jogos, ex-yakuza, desilusões amorosas, etc. Encontramos pouquíssimas mulheres nesses lugares. Crianças não são vistas, pois o governo as recolhe em instituições de caridade. A média de idade varia de 35 a 75 anos. Adolescentes também são muito incomuns nesses lugares. Estes muitas vezes encontram-se refugiados de maus tratos caseiros, desilusões, etc. De modo geral, são pessoas que não possuem motivação para seguirem suas vidas normalmente, tampouco lutarem por algo melhor. A maioria deles já está na rua entre 30 e 40 anos. Alguns há 10-15 anos. ( - A maioria estão na rua por mais de 5 anos, mas há casos daqueles que se encontram há 40 anos morando na rua).

 

A questão dos sem-teto é bastante conhecida no mundo todo. Você vê diferenças entre os moradores de rua aqui do Japão e os do Brasil? Sim, com certeza. No Brasil, há uma fome física, material. Não há empregos, não há assistência, tudo é muito caro lá. Pra muitos é o único lugar onde ele poderia estar. No Japão, qualquer emprego que você consegue dá pra oferecer uma vida razoável pra família. Aqui a fome é espiritual. A dor é não conseguir lidar com a depressão, com a falta de compreensão, com a rigidez das formas hierárquicas da sociedade. A parte material (emprego, casa, carro) não conseguiria suprir, compensar a dor dessas pessoas. ( - Essa é a parte que esclarece muito o intuito do trabalho).

 

Para as pessoas que vivem em cidades menores do Japão, não é muito comum ver pessoas desabrigadas. Qual a região que vocês atendem? Desde que comecei o trabalho, atendo à região de Tóquio. São aproximadamente 175 pessoas nas proximidades da estação de Tóquio, 80 pessoas em Sumida, e cerca de 30 pessoas em Ueno. Há um fato curioso sobre a cidade de Ueno. Quando iniciamos nossas atividades lá, os guardas que fazem rondas nas praças, e a própria polícia tentou nos barrar, e constantemente tínhamos que mudar o local das entregas. Certa vez tivemos que ficar no meio de uma ponte que era um terreno neutro entre a estação e uma empresa vizinha. Dava a impressão que queríamos nos aparecer, mas estávamos apenas procurando um lugar onde pudéssemos fazer nosso trabalho. Nas outras áreas, nós paramos o carro, montamos as filas e distribuímos as doações. Em Ueno, precisamos andar muitos quilômetros a pé entregando tudo de mão em mão, um por um, pra não irritarmos as autoridades. Algumas vezes brincamos que estávamos fazendo tráfico de alimentos e roupas usadas. ( A verdade é que ainda seguimos parte deste fato né! O grifo é meu).


O que é doado a eles nessas visitas? Levamos sempre Onigiri (bolinho de arroz japonês), uma porção de sopa e chá. Dispomos também de roupas, calçados e cobertores, produtos de doações da população. Cada vez que fazemos são, aproximadamente, 50 a 60 quilos de arroz e 200 litros de sopa. Entregamos também, junto com os alimentos, uma pequena mensagem em japonês para acalentar o coração deles. ( Faltou incluir aqui o sentimento Fraterno que todos os participantes compartilham.)


Nos outros dias, como eles se alimentam? Onde tomam banho, fazem suas necessidades, onde eles dormem? Como passam o inverno? A maior parte deles não é residente da cidade de Tóquio, mas migram pra lá. Assim como no Brasil, eles vivem do serviço de catar latinhas e papelão, e quanto maior a cidade, mais lixo reciclável pra recolher. Com a venda arrecadam em torno de mil ienes ao dia, do qual com alguma freqüência tomam banho em Sentou (banheiros públicos, do tipo ofurô, que custam em média, 150 ienes. Alguns dormem na rua mesmo, outros em matas nos arredores da cidade. Quanto ao frio, pra eles não faz diferença, já se acostumaram, dizem. Outros grupos de trabalho social também fornecem alimentos, como lámen, e outras doações. O que seria um complemento pra eles. Há um senhor de idade mediana, que nos seus tempos passados era um professor, versado nas línguas inglesa e espanhol, costuma tomar banhos com mais freqüência. Ele sempre está mais limpinho e arrumado. Mas também não pensa em voltar pra sua vida. ( - Corrigindo minha fala: a partir de 150 Ienes.  -Eu não diria que já se acostumaram, mas que se conformaram em que ter que aturar o frio).


Para uma quantidade tão grande de alimentos é necessário uma boa organização e experiência. Como vocês põem em ordem todo o processo? Começamos sempre no sábado. De manhã bem cedo fazemos as compras de verduras e legumes, entre outros, e já iniciamos o corte, e a separação destes. Até as 7 da noite, praticamente a sopa já está pronta. Depois desse horário, começamos então a confecção dos onigiris. No início do projeto, costumávamos amanhecer com bolinhos de arroz entre os dedos, mas hoje, já com um pouco mais de experiência, conseguimos terminar geralmente às 23:30 h. No domingo, saimos de Honjo às 3 da tarde para chegarmos até eles até as 7 da noite. Levamos o onigiri já embalado em unidades individuais e pratos e copos descartáveis para a sopa e o chá. A distribuição costuma durar algumas horas. Normalmente retornamos depois das onze

( - Ainda bem que o grupo todo  pegou a prática e rapidez na confecção dos onigiris, antes madrugávamos para conseguir fazer a quantidade toda de arroz...).

 

Quais as perspectivas, as esperanças com o trabalho de vocês? Num projeto parecido, realizado em Nagoya, há indicativas de reintegração de 10 a 20% desses casos. Esses saem da rua e retomam suas vidas, conseguem um emprego, arrumam namoradas, se casam, e não retornam mais. Aqui, em Tóquio, sentimos que ainda há muito a se fazer, visto que uma casa e um emprego não seria o suficiente pra eles de início. O processo de retirada dessas pessoas dessa vida envolve questões muito mais subjetivas, mais ligadas ao interior do que o material e palpável. É um processo que envolve confiança, amizade, abertura para a cura propriamente dita desses problemas internos que os levam pra rua. A maior dificuldade deles está no medo, na insegurança de encarar a realidade de frente novamente e tornar a ver, ouvir e sentir toda a experiência passada. Eles precisam vencer o desânimo, esquecer que desistiram. E isso requer uma presença mais atuante, irmos mais vezes até eles. Nós vamos todo terceiro domingo de cada mês. Nos lugares onde os índices de recuperação são altos, o acompanhamento chega a ser de até quatro vezes ao mês. Arriscamos dizer que o auxílio material que fornecemos é apenas um pretexto para essa aproximação. A intenção é mostrar pra eles outros pontos de vista, alternativas de solução para seus problemas. ( -  A transparência das palavras e clareza na colocação das idéias é um mérito da repórter Aline  e não meu).

 

Qual a visão deles por estarem morando nas ruas? Eles se sentem livres lá. Longe de ser o lugar mais confortável pra se viver, é um lugar onde a fuga se torna uma forma de precisar se tornar anônimo, de não possuir um rosto, um nome a zelar, alguém a obedecer. Eles não querem ser cobrados. Certa vez, eu consegui um trabalho pra um deles em uma empreiteira, alegando ser um amigo meu. Os contratantes acharam estranho o fato de ele não possuir mudança. De qualquer forma, ele começou a trabalhar. Deu-se muito bem no serviço, acompanhou tranquilamente. No entanto, após receber seu primeiro salário completo, cerca de um mês depois, o senhor retornou às ruas, feliz da vida por agora ter dinheiro suficiente por alguns meses, levando em conta que muitos deles chegam a passar a semana com 90 ienes. Há também entre eles, um senhor já contando seus 74 anos. Possui idade suficiente pra receber aposentadoria, ser acolhido em casa para idosos além de outros benefícios. Pelo contrário: ele já não quer sair de lá. Gosta da vida livre das ruas, onde não precisa dar satisfação de seus atos. A grande maioria deles possui um círculo de amizades, como uma sociedade alternativa. ( - Pensei que essa parte não entraria na entrevista, foi apenas um acontecimento que lembrei na hora. Mas a verdade é que muitos deles (mendigos) ainda trazem muitas desilusões do passado, motivo pelo qual dificulta a reabilitação dos mesmos).


No Brasil, a taxa de reincidência na criminalidade e nas drogas, além de prostituição entre moradores de rua é bastante alta. Você percebe alguma semelhança no Japão com relação a isso? Não. Nunca vi nem ouvi falar sobre crimes, drogas e prostituição entre eles. Pelo contrário, há uma espécie de honra, de pacto silencioso entre eles de manter sua dignidade, embora vivendo em condições subumanas. A única coisa que tenho relatos é de bebidas alcoólicas. Há aqueles que se refugiam do frio na bebida, outros da tristeza, mas nunca ouvi relatos sobre drogas. Isso é uma coisa boa. ( - Corrijo: Não seria uma espécie de honra, mas por uma questão de bom senso. Sabendo que muitos mendigos trazem duvidosas reincidências negativas de atos passados, nenhum deles se arriscaria a entregar o outro com medo de também serem pego).


Como vocês acham que os japoneses e os estrangeiros vêem esse tipo de situação social? A maioria das pessoas entende os moradores de rua como vagabundos, como preguiçosos, que não compensa perder tempo com eles. Acham que fazendo esses tipos de doação, estamos apoiando o movimento dos moradores de rua, que estamos fazendo apologia a isso. Acreditam que só bastaria que eles vencessem essa suposta barreira da “preguiça” e arrumassem um trabalho pra conseguirem se reintegrar, levando em conta que emprego não é um problema tão grande no Japão. No entanto, como disse anteriormente, um emprego, uma casa e um carro, coisas estritamente materiais, não compensariam a situação deles. Não são mendigos, são pessoas como nós, que por algum motivo não tiveram forças pra lutar contra um mal que os acometeu tempos atrás. Desistiram, se desiludiram. Arrisco até em dizer que todos estão passíveis de ir parar lá. A mente humana é um labirinto desconhecido, onde não podemos prever nem nossos próprios atos. Portanto, não creio que estamos trabalhando em vão. Não é do nosso caráter desistir, nem desanimar. ( - Sempre há um toque sútil da repórter nas respostas e esse é mais um deles).


Há grandes campanhas de conscientização no mundo todo sobre os mais variados temas. Você acredita que seria um meio de amenizar o problema? Sim, absolutamente. Quando fechamos os olhos para as coisas corriqueiras como o abuso de poder, a mania de usurpar e ostentar poderes, o machismo, a intolerância, a violência, a injustiça, será que não estamos cooperando pra que mais pessoas se abriguem nas ruas? As pessoas já não se preocupam em buscar uma evolução como seres humanos, em se tornar pessoas melhores, construírem uma estrada mais amena para o futuro. Estão muito ocupados em tornarem-se cada vez mais ricos, mais poderosos, mais independentes. Esquece-se de coisas básicas, como o perdão, a humildade. A diferença entre nós e eles são apenas os trajes e o espaço geográfico. Pra muitos deles, nós é que somos mendigos, os desabrigados, porque enxergam em nós um conformismo solidário.

 

Gostaria de estar fazendo uma importantíssima colocação:

O Grupo de Orações se constitui de grandes amigos, cooperadores e simpatizantes,

 presentes e distantes que fazem do grupo a união de força, carinho e dedicação

nos trabalhos e reuniões que vem se desenvolvendo.

Falo em nome de todos do grupo apenas como representante,

pois nada haveria se concretizado sem o auxílio e compreensão dos mesmos.


Aldo Uto

aldo@grupodeoracoes.com


"Cultura não é acumulação de informação, é assimilação de informação, é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. A cultura se revela no modo de falar, de sentar, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica o seu olhar. Não é preciso ler muito, mas ler bem"

José Paulo Paes

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February 6, 2010 at 8:39 AM Flag Quote & Reply

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Esta foi a matéria que saiu no Jornal IPC Internacional Press. Dia 06/02/2010

February 6, 2010 at 12:20 PM Flag Quote & Reply

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