Ainda o passe!

Conta-nos Irmão X1 que Simão Pedro pediu ao Mestre que primeiro curasse os enfermos, para depois falar-lhes do Evangelho do Reino. E Filipe acrescentou:

“– (...) É quase impossível meditar nos problemas da alma, se a carne permanece abatida de achaques...”.

No dia seguinte, enquanto Jesus, com o auxílio dos apóstolos, curava os enfermos, iam os discípulos convidando os beneficiados para que aguardassem a pregação do Médico Celeste, a qual seria um banquete de verdade e luz.

Estes, contudo, tão logo recebiam a cura, afastavam-se apressados, com breves agradecimentos e desculpas.

Quando o último feridento foi curado, permaneciam à margem do lago somente Jesus e os doze aprendizes...

“– Pedro, estuda a experiência e guarda a lição. Aliviemos a dor, mas não nos esqueçamos de que o sofrimento é criação do próprio homem, ajudando-o a esclarecer-se para a vida mais alta.”

*

O conto ilustra o fato de que nós, homens, somos eternos egoístas, preocupados sobretudo com a saúde física e apenas em receber, jamais em doar. A aquisição da verdade e da luz exige esforços, mudanças e reformas, para os quais “não temos tempo”, ou interesse.

O estudo esclarece a questão. Os livros da Doutrina Espírita são fartos em ensinamentos. Vejamos o que dizem a propósito do tema.

O opúsculo “Orientação ao Centro Espírita”2 afirma (p. 27), que o passe e a fluidificação da água são “(...) recursos terapêuticos do plano espiritual às pessoas carentes deste auxílio”. E, à p. 28, com transparente clareza, registra:

“Após a explanação do Evangelho, à luz da Doutrina Espírita e atendendo à recomendação de Jesus, ‘se impuserem as mãos sobre os enfermos eles ficarão curados’, o passe será aplicado às pessoas que o desejarem, de acordo com o seguinte esquema:

2.a – O dirigente da reunião permitirá a saída do recinto, em silêncio, dos que não sentirem necessidade de receber os passes; (...)

2.d – o passe deverá ser transmitido com simplicidade, evitando-se a gesticulação exagerada, a respiração ofegante, o bocejo continuado e o toque direto no paciente; (...)”. – Grifamos.

Ora, a proposta é generosa, pois deixa ao arbítrio de cada um recebê-lo, ou não. No caso, ninguém melhor do que o próprio paciente, se esclarecido e de posse de suas faculdades mentais, para avaliar-se.

Contudo, se a pessoa está com saúde física e mental, por que recebê-lo?

Esclarece Martins Peralva3:

“O socorro, através de passes, aos que sofrem do corpo e da alma, é instituição de alcance fraternal que remonta aos mais recuados tempos”. – Grifamos.

Cremos que a falha, aqui, é dos dirigentes das reuniões, quando não liberam os não enfermos, e não criam oportunidade para que se retirem. Há até os que estimulam os presentes a recebê-los. Assim agindo, passam a impressão de que há obrigatoriedade na recepção de passes. O que não é verdade. Pois seria absurdo crer-se que todos estejam enfermos; sobretudo se são antigos frequentadores ou trabalhadores dos Centros Espíritas.

Ou então os assistentes e trabalhadores não estão recebendo – ou observando – a orientação das Casas Espíritas, quanto à necessidade da reforma íntima, da prática do bem, do Estudo do Evangelho no Lar, indispensáveis à conquista do bem-estar físico e mental. O que seria outro absurdo: admitir que Instituições Espíritas deixem de orientar corretamente os que as frequentam!

Quando iniciamos a reforma íntima e aderimos ao trabalho em benefício do próximo, aprendemos a doar e naturalmente nos equilibramos. E os remédios, em muitos casos, se tornam dispensáveis. O passe é um desses medicamentos que, a partir daí, será utilizado quando absolutamente necessário, o que se dará raramente, em pessoas saudáveis e operosas.

É o que nos recomenda Emmanuel4:

“Se pretendes, pois, guardar as vantagens do passe que, em substância, é ato sublime de fraternidade cristã, purifica o sentimento e o raciocínio, o coração e o cérebro.

Ninguém deita alimento indispensável em vaso impuro”.

A seguir, admoesta, judicioso como sempre:

“Não abuses, sobretudo daqueles que te auxiliam. Não tomes o lugar do verdadeiro necessitado, tão só porque os teus caprichos e melindres pessoais estejam feridos.

O passe exprime, também, gastos de forças e não deves provocar o dispêndio de energias do Alto, com infantilidades e ninharias.

Se necessitas de semelhante intervenção (...), humilha-te (...) e, recordando que alguém vai arcar com o peso de tuas aflições, retifica o teu caminho (...)”. – Grifamos.

O passe é recurso de emergência para tratamento de doenças físicas e mentais. Mas a cura definitiva depende da cura do espírito enfermo e se dará pela nossa reforma íntima, pela nossa Evangelização.

É ajuda que vem do Alto, por acréscimo de misericórdia. Assim como não bebemos água só porque está disponível, não abusemos dele, pois é algo sagrado, que deve merecer nosso respeito.

Jesus orientou os discípulos:

“(...) se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados”. Mc, 16:18.

Jairo (Mc 5:22-23) recorre ao passe de Jesus, porque sua filha estava enferma: “E rogava-lhe muito, dizendo: Minha filha está moribunda; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva”. Mc, 5:23.

Façamos o mesmo, quando estivermos enfermos, mas retifiquemos a conduta que desequilibra a saúde física, mental e espiritual.

Não sobrecarreguemos, pois, o Divino Mestre, desnecessariamente. Nem tomemos “o lugar do verdadeiro necessitado”.

Todos devem ser orientados adequadamente, para que também aprendam a passar amor e descubram, na reforma íntima, o caminho para a cura real.

Apliquemos o passe ao enfermo, mas, ao saudável, convidemo-lo para que estude, aprenda, trabalhe em diversas tarefas e – quem sabe? –, se torne, também ele, um passista!

Com isso, faremos do acomodado e eterno paciente de passes um servidor do Cristo que, transformando-se de sujeito em agente da ação beneficente, transforme-se e seja ele alguém que aja no bem de variadas formas, entre as quais a aplicação do passe. Ao invés de receber indefinidamente, que aprenda a doar.

Com a prática dos ensinos do Espírito de Verdade: “Amai-vos; instruí-vos!”, todos cresceremos na compreensão e vivência das sublimes lições evangélicas!

Gebaldo José de Sousa

Referências bibliográficas:

1. Contos e Apólogos, Irmão X/Francisco C. Xavier, Cap. 6, 8ª ed., FEB, Rio, 1995.

2. Orientação ao Centro Espírita, 3ª ed., FEB, Rio, 1988.

3. Estudando a Mediunidade, Martins Peralva, Cap. 26, 18ª ed., FEB, Rio, 1995.

4. Segue-me, Emmanuel/Francisco C. Xavier, 6ª ed., O Clarim, Matão, 1987, p. 133/5.

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