Espiritismo e Consumismo

December 16, 2014

 

 

 

 

ESPIRITISMO E CONSUMISMO

 

 

Livro dos Espíritos – Allan Kardec

 

III – Gozo dos Bens da Terra

      711. O uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens?                    

 

        - Esse direito é a conseqüência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem conceder os meios de ser cumprido

 

        712_Com que fim Deus fez atrativos os gozos dos bens materiais?

 

        - Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e também para o provar na tentação.

 

        712 – a) Qual o objetivo dessa tentação?

 

       - Desenvolver a razão que deve preservá-lo dos excessos.

 

Comentário de Kardec: Se o homem não fosse instigado ao uso dos bens da Terra senão em vista de sua utilidade, sua indiferença poderia ter comprometido a harmonia do Universo. Deus lhe dá o atrativo do prazer que o solicita a realização dos desígnios da Providência. Mas, por meio desse mesmo atrativo, Deus quis prova-lo também pela tentação, que o arrasta ao abuso, do qual a sua razão deve livrá-lo

 

       713. Os gozos têm limites traçados pela Natureza?

 

-         Sim, para vos mostrar o termo do necessário; mas pelos vossos excessos chegais até o aborrecimento e com isso vos punis a vós mesmos.

 

        714.Que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento dos seus gozos?

 

      — Pobre criatura que devemos lastimar e não invejar, porque está bem próxima da morte!

 

       714 – a) É da morte física ou da morte moral que ele se aproxima?

 

      — De uma e de outra.

 

Comentário de Kardec:  O homem que procura, nos excessos de toda espécie um refinamento dos gozos coloca-se abaixo dos animais, porque estes sabem limitar-se à satisfação de suas necessidades. Ele abdica da razão que Deus lhe deu para guia e quanto maiores forem os seus excessos maior é o império que concedeu a sua natureza animal sobre a espiritual. As doenças, a decadência, a própria morte, que são a conseqüência do abuso, são também a punição da transgressão da lei de Deus.

 

 

IV – Necessário e Supérfluo

715. Como pode o homem conhecer o limite do necessário?

 

      - O sensato o conhece por intuição e muitos o conhecem à custa de suas próprias experiências.

 

      716. A Natureza não traçou o limite do necessário em nossa própria organização?

 

       — Sim, mas o homem é insaciável. A Natureza traçou limites de suas necessidades na sua organização, mas os vícios alteraram a sua constituição e criaram para ele necessidades artificiais.

 

     717. Que pensar dos que açambarcam os bens da Terra para se proporcionarem o supérfluo, em prejuízo dos que não têm sequer o necessário?

 

       — Desconhecem a lei de Deus e terão de responder pelas privações que ocasionarem.

 

 Comentário de Kardec: O limite entre o necessário e o supérfluo nada tem de absoluto. A civilização  criou necessidades que não existem no estado de selvageria, e os Espíritos que ditaram esses preceitos não querem que o homem civilizado viva como selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão colocar cada coisa em seu lugar. A civilização desenvolve o senso moral e ao mesmo tempo o sentimento de caridade que leva os homens a se apoiarem mutuamente. Os que vivem à custa das privações alheias exploram os benefícios da civilização em proveito próprio; não têm de civilizados mais do que o verniz, como há pessoas que não possuem da religião mais do que a aparência.

 

 

 

 

 

Consumismo – uma pandemia social

 

Conta-se que Sócrates, filósofo grego , gostava de descansar a cabeça percorrendo  o centro comercial de Atenas. Quando vendedores o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!" 

 

O que se passa atualmente na sociedade é uma assustadora e incontida febre de consumo que atinge praticamente todas as camadas sociais , mesmo as menos providas de recursos excedentes , as quais muitas das vezes se endividam e complicam sobremaneira a existência pela posse de mercadorias que  não são exatamente o que necessitam. E não só se endividam , mas inclusive às vezes até se prestam a procedimentos ilegais para a obtenção de todo tipo de supérfluos.

 

A mídia irresponsável bombardeia incessantemente a mente das pessoas, em sua maioria despreparadas para exercer escolhas criteriosas ; os empresários e comerciantes gananciosos  servem-se de artimanhas e artifícios os mais ardilosos e mesmo impiedosos, criando imagens de vida supostamente feliz e de sucesso somente quando assentada sobre o excesso de coisas, de bens materiais , de padrões de beleza artificial, de prazeres mundanos e físicos os mais extravagantes. 

 

E, em meio a isso tudo, as criaturas correm de um lado para o outro, na busca frenética para ganhar um pouco ( ou muito) mais , cada vez mais angustiadas pelo ter , pela posse daquilo que na véspera , ou até no mesmo dia, a televisão, a internet etc . preconizam como último modelo disso ou daquilo absolutamente indispensável.

 

E assim, essas mesmas criaturas não vivem, não percebem o raio de sol que cintila na folha úmida de uma árvore ao passarem apressadas ; outras, encerradas em seus prédios ou carros de vidros negros nem sequer se dão conta de que há sol do outro lado daqueles vidros  que lhes escondem o mundo que pulsa e  vibra lá fora . E, pior ainda, em muitos casos, muitas dessas , quais sejam, levantam os olhos de seus celulares , iPhones ,iPads  iEtc. para olhar diretamente nos olhos de outra criatura, sorri-lhes, tocá-las num aperto de mão, num abraço, muitas vezes nem mesmo daquelas que declaravam ser seus entes queridos.

 

Encontramos em nossa Doutrina Espírita farto material para nos imunizarmos contra essa pandemia - no Livro dos Espíritos, questão 714, quando Kardec pergunta "Que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento de seu gozos", os Espíritos superiores esclarecem: "Pobre  criatura , que devemos lastimar e não invejar porque está bem próximo da morte !" À questão seguinte, 714a, se ele está próximo da morte física ou moral, a resposta é: "De  uma e de outra". E o comentário de Kardec que se segue é extremamente claro e mesmo contundente: "O homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento dos gozos coloca-se abaixo  dos animais ,´porque estes sabem limitar-se à satisfação de suas necessidades .Ele abdica da razão que Deus lhe deu como guia , e quanto maiores forem os seus excessos, maior é o império que ele concede à sua natureza animal sobre a espiritual. As doenças, a decadência, a morte mesmo , que são consequência do abuso , são também a punição  da transgressão da lei de Deus".

 

Ainda no Livro dos Espíritos, a obra basilar da Doutrina Espírita, na quarta parte, ao tratar  do tema Felicidade e Infelicidade Relativas, os amigos espirituais  nos ensinam que, na Terra, ainda não é possível a felicidade completa, mas que podemos abrandar os males e ser relativamente felizes ; que, na maioria das vezes, é o homem o artífice de sua própria infelicidade; que a medida comum de felicidade possível a  todos é :para vida material ,a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro. Kardec então, conhecedor de nossos argumentos e desculpismos , pergunta: "mas ,segundo a posição, o que seria supérfluo para um, não se tornaria necessário para outro?' E a resposta é taxativa : "Sim, de acordo com as vossas ideias materiais , os vossos preconceitos, vossa ambição , e todos os vossos caprichos ridículos , para os quais o futuro fará justiça, quando tiverdes a compreensão de verdade".

 

Que dizer, como pretextar seja o que for , quando a seguir a Espiritualidade Maior ainda assevera:"os males deste mundo estão na razão das necessidades artificiais que criais para vós mesmos (...)O mais rico é aquele que tem menos necessidades".

 

E essa assertiva nos remete de volta a Sócrates, considerado em nosso Evangelho Segundo o Espiritismo como o precursor do Cristianismo e do Espiritismo, tal a sua envergadura espiritual e moral, ao considerarmos com a devida atenção sua declaração acima transcrita : "quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!" Declaração essa de que podemos perfeitamente nos servir e, melhor ainda , colocar em prática. Certamente seremos todos bem mais felizes, já neste mundo, aqui e agora!

 

 

Autora: Doris Gandres

Jornal Correio Espírita - Abril de 2014

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